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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sinceramente, o que a sinceridade tem a ver com o consumo?


Texto de José Antônio Piné

Até que ponto uma marca que assume sua fragilidade ou um problema em seu produto ou serviço realmente é diferente de uma outra marca que tenta ocultar seus erros?

Até que ponto uma marca pode prometer uma expectativa no consumidor mesmo sabendo que a verdade está mascarada por fatores estéticos e emocionais? 



            Lembro-me da minha infância, de ser um apaixonado por carros e revistas automobilísticas como a quatro rodas, de ir no supermercado com minha mãe na compra do mês. E eu ia junto ao supermercado só para ganhar a revista. Naquela época, nos anos 80, se fazia uma compra gigante uma vez por mês por causa da inflação. Sabia até a hora de fazer a chantagem emocional, na hora do caixa, e minha mãe também já estava preparada para o meu jogo. Às vezes, ela não comprava a revista por causa do preço que era muito alto. Eu não queria saber de Disney ou turma da Mônica, queria era saber de Quatro Rodas.
            Sabia o nome de todos os carros brasileiros, motores, designações tipo XLS, GTS, SR, etc, o porquê de cada uma destas letras, mas nunca entendia porque cada letra desta, quanto mais exclusiva fosse, mais caro tornava o modelo, mesmo que este só mudasse a cor do banco ou tivesse uma faixa exclusiva na lateral da porta.
            A minha primeira decepção como adulto consumidor no Brasil foi o fato de nunca ter dinheiro para comprar um Porsche modelo 911, e descobrir que eles valem menos que nós pagamos em nossos carros médios aqui no Brasil, se morássemos lá fora.
            Por exemplo, se quisermos comprar um Porsche boxter ano 2005, nos EUA, preto, impecável, sem amassados e arranhões, praticamente carro de colecionador, ele sai por volta 20 mil dólares. Não acredita? Olha no Ebay. Mas, conselho de amigo, pare por aí, se não quiser ficar decepcionado com seu novo carro comprado com as taxas de juros do Banco do Brasil que você considera o melhor negócio da sua vida.
            Os preços que pagamos lá fora nos carros de nossos sonhos, aqui estes mesmo carros são realidades para poucos seres humanos. Pensando bem, estes seres humanos que tem este dinheiro para comprar estes carros aqui no Brasil são pessoas que não sabem gastar o dinheiro que tem, ou são loucos mesmo, tamanha a desproporção de valores de algumas marcas aqui e no exterior. Me pergunto que tipo de administradores financeiros são estes consumidores brasileiros?
            Pior é quem não tem escolha mesmo aqui no Brasil, a grande maioria da população, e tem que se contentar com carros nacionais que já nascem com cara de ultrapassado, pagando preços fora da realidade mundial. A culpa não é só das montadoras nacionais. O processo é muito mais complexo, mas a sociedade não tem poder de voz diante do que circula em nossos mãos por aqui.
            A minha segunda decepção como consumidor foi descobrir que o conteúdo da minha revista preferida na minha infância era toda mentirosa, falando que aqueles carros que se chamavam uno, santana, escort, caravan, prêmio, etc, eram carros excepcionais, de alta tecnologia, etc. Tudo piada. Se hoje dirigimos carros ruins e caros no Brasil, nosso país em 2012 possui 16 fábricas de automóveis e uma economia aberta, imagina na década de 80 quando tínhamos uma economia fechada e 4 fábricas automotivas.
            Agora, dentro de toda esta ilusão do garoto, uma coisa eu admito: a FIAT nunca negou que faz carros ruins. Tanto é que o bordão popular FIAT: Fui Iludido Agora é Tarde, foi por muitos anos a imagem dos 147 que hoje valem mais que um porsche usado no exterior, na mão de colecionadores brasileiros.
            E quem diria, hoje a FIAT vende mais carros que qualquer outra marca no Brasil, um dos maiores mercados de automóveis do mundo, e seus carros nunca mudaram muito, sempre foram ousados no designer, plastificados ao extremo no acabamento e suspeitos na durabilidade mecânica. Mas sempre foram carros “baratos”, e que nunca mentiram para nós que eram uma mercedes, uma bmw, um audi, um porsche, etc. Eles sempre foram italianos, carros nervosos e explosivos, entendam como quiser esta última palavra.
            Depois de eu comprar um “honda” num país estrangeiro, descobri porque as marcas de carros japoneses são os únicos automóveis velhos que circulam nas ruas e estradas americanas, e porque estes carros são sinônimos de durabilidade para o mercado americano, por mais que eles, os americanos, se incomodem com isso, a maior e mais competitiva economia automobilística do mundo. A verdade é que carro japonês não quebra nunca. Só pára de rodar quando o dono enjoa dele.
            E os japoneses sabem disso, lutaram por isso, e usam isso como seu grande triunfo. Tanto é que os coreanos, com sua revolucionária indústria automobilística atual, compara cada um dos seus produtos e lançamentos com os famosos carros japoneses que dominam o mercado mundial por décadas.
            O dia que o Brasil tiver uma cultura de os consumidores reclamarem das coisas que compramos, acho que deixaremos de ser ingênuos e questionaremos o preço e o produto que realmente temos em mãos. Falta informação ou falta experiência?
            Flawsome, a mistura na língua inglesa da palavra defeito com a palavra maravilhoso, um dia terá aqui no Brasil a força que possui como tendência nas economias maduras de consumo. Um lugar no meio virtual aonde o consumidor "descasca" as marcas que enganam, e se apaixonam pelas marcas que são sinceras.
            Você realmente acha que um porsche é um carro confortável como um volvo? Claro que não, mas eles não te prometeram isso na venda. Olhe o último comercial da marca no youtube, e talvez um dia você irá querer ter um porsche também, nem que seja daqui a mais ou menos 20 anos.
            Você acha que realmente as pessoas compram uma Harley Davidson porque ela é uma moto excepcional ou realmente compram ela por paixão pela marca? Provavelmente ninguém sóbrio e sem coração iria comprar uma moto em formato de gaiola que tem um som similar a "potato, potato, potato" quando ligada.
            Não sou eu que inventei isso. Quem disse isso foi um dos proprietários da marca para um documentário no programa Mundo S/A da Globo News. Agora por que brasileiro compra FIAT tendo tantas opções? 
            Uma verdade seja dita, marcas que são sinceras, as pessoas nunca irão demonizar. Ninguém é perfeito neste mundo, muito menos as máquinas. E quem sabe usar estes defeitos como um objetivo a ser superado sempre será respeitado por este consumidor irracional e emocional que nós todos somos.
             Ou você acha que existe alguma lógica no consumo? Na verdade, sempre tive uma paixão secreta por um FIAT uno 1.5R amarelo que um vizinho meu tinha na minha infância.

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