Resenha
da matéria publicada na revista Época de janeiro de 2012, entrevista feita à
Umberto Eco, intitulada: ‘Umberto Eco: ”O excess de informação provoca
amnesia”’.
O intelectual e romancista Umberto
Eco, 80 anos, em sua mais recente obra de 2010, O cemitério de Praga, mantém
seu carácter polêmico de escrita, característica já presente desde o início de sua carreira, no ano de 1962. O seu
novo trabalho, por se tratar de um tema muito polêmico, o surgimento do
anti-semitismo, foi criticado pelos Igreja Católica e pelos grupos judaicos de
Roma. De um lado os católicos não gostarem de terem os jesuítas satirizados
("são maçons de saia"), e do outro os judaístas terem receio das
menções do romance ao Protocolo dos sábios de Sião, que poderiam gerar uma onda
de ódio aos judeus.
Entre
as obras famosas do autor estão O nome da Rosa (1980), o pêndulo de Foucault
(1988), A ilha do dia anterior (1994) e Baudolino (2000) e a Misteriosa chama
da rainha Loana (2004).
Em
entrevista a revista Época de janeiro de 2012, Eco comentou sobre temas como
idade, ele iria completar 80 anos naquele mês, o livro de papel que ele
continua sendo um dos maiores defensores, a internet, o conhecimento on-line,
literatura, e sobre o seu mais recente romance, O cemitério de Praga. Nas horas
de folga, o autor costuma colecionar livros e ouvir música pela internet.
Para
Umberto Eco, a internet é uma forma de desaprendizado, e o excesso de
informação sem hierarquia se torna um problema para o internauta, mais perigoso
que a desinformação. Segundo o escritor, o universo on-line é um universo
selvagem. E conclui com o raciocínio que conhecer é cortar seleccionar, excesso
de informação gera amnésia, faz mal. Também cita o fato de a TV, para o bem ou
para o mal, sempre ter selecionado o conteúdo para pessoas sem instrução,
"os ignorantes". Já a internet não. Umberto Eco sugere as
Universidades a elaborarem uma teoria e uma ferramenta de filtragem do conteúdo
on-line, que funcione para o bem do conhecimento.
Sobre
a morte da literatura hoje no mundo, como alguns teóricos escrevem, o
romancista se mostra um otimista que acredita na existência constante de
grandes escritores a serem descobertos. Outro ponto colocado por Umberto Eco é
o fato de a arte da literatura ser influenciada pelas crises econômicas, como
todas as profissões do mundo capitalista, que acabaria dificultando a
independência financeiras dos profissionais. Hoje, países europeus não
conseguem ter uma classe de escritores economicamente independentes, mas os
Estados Unidos de uma certa forma, ainda possui uma industria capaz de se
manter como um polo emissor de conteúdo e profissionalizador dentro deste
contexto econômico instável.
Em
outro ponto polêmico de suas opiniões, o romancista defende o não
desaparecimento do livro, ou da substituição deste pelo meio digital, o ebook,
mesmo tendo o romancista Umberto Eco narrado durante a entrevista para a
revista, uma experiência recente com a utilização de um Ipad, em que o aparelho
o ajudou muito durante uma viajem de trabalho pelos Estados Unidos. Tema
de muita discussão entre amantes do papel e sua cultura de utilização e
defensores da alta tecnologia, a substituição do livro pode desencadear uma
revolução no setor da mesma forma como aconteceu com a industria fotográfica na
década passada. A revista americana Newsweek publicou um estudo comparativo
entre a produção da industria tradicional de livros e a industria digital. Os
dados são baseados no ano de 2009. Estes números avaliam o custo de produção e
o valor de venda de um exemplar em cada formato, quanto em royalty um autor
pode ganhar com a produção intelectual, o volume em vendas de um sucesso
editorial no formato tradicional e digital, quanto cada editor faturou em cada
formato e quanto o planeta foi afetado pela produção destes conteúdos.
O custo de produção de um livro tradicional é 4,05
dólares por livro para um produto de valor 26 dólares. Na versão on-line, o
custo de produção de um livro é 0,50 dólares para um produto de valor 9,99
dólares. Um autor fatura em royalties o valor de 3,90 no formato tradicional e
no formato digital 2,12 dólares para os produtos citados anteriormente. No ano
de 2009, o faturamento em vendas foi de 249,2 milhões de dólares do formato
tradicional foi de 29,3 milhões de dólares no formato digital. Para se
produzir um e-reader, se emite a mesma quantidade de carbono na atmosfera para
produzir de 40 a 50 livros.
No debate que se instaura sobre o assunto na sociedade e
nos meios editoriais, autores e empresários se manifestaram com suas defesas a
favor ou contra a substituição do livro. Umberto Eco e o escritor Jean-Claude
Carrière expuseram suas opiniões no livro chamado Não Contem com o fim dos
livros, série de relatos e conversas entre os dois autores, aonde o tema é o
livro e a sua importância na vida destes dois escritores.
O problema encontrado pelos autores Umberto Eco e
Jean-Claude Carriere é mais complexo do que simplesmente uma questão de opção
entre o passado papel e o atrativo digital das novas tecnologias. Neste momento
o que se discute são os próprios conceitos de livro e literatura, que já não
parecem mais tão claros diante das novas mídias. o próprio autor de O Nome da
Rosa reconhece que, por mais que tenha devorado bibliotecas, é incapaz de
devorar a revolução que se anuncia. Uma nova semântica começa a se instaurar
através a partir da internet. Os autores começam a trabalhar com o conceito de
quarta tela, que seria uma nova ferramenta que se tornaria parte de nossas
vidas. As outras três seriam a TV, o computador e o telefone celular.
O primeiro choque dentro da industria editorial já começa
a ser perceptível em novas experiências que começam a ser aplicadas por grandes
editoras. Novos formatos digitais para e-books se utilizando de linguagem de
HTML criam um produto mais interactivo entre produtores e leitores, podendo ser
reescritos por quem os consome. Uma nova experiência interactiva e colaborativa
que coloca em questão o conceito de autoria e propriedade intelectual. Com o
surgimento do HTML no formato dos Epub, o próprio conceito de livro está em
aberto. Seriam livros ou alguma forma nova, que já é chamada de
transmidia, que conviverá em separado com o mercado editorial tradicional, como
a televisão adquiriu uma linguagem diferente do cinema?
Na obra literária "A questão dos livros: passado,
presente e futuro", o autor Robert Darnton, relata que o livro também foi
parte de uma revolução no passado que desbancou métodos de produção como o
dagueorótipo, contrariando seus defensores. Mas as revoluções tem sido cada vez
mais rápidas. "Da descoberta da escrita até o códex (formato do livro
atual) se passaram 4000 anos. Do códex à tipografia, 1.150 anos. Da tipografia
para a internet, 524 anos. Da internet para os mecanismos de busca, 17 anos.
Deles para o Google, 7 anos. E quem sabe o que estará ali na esquina ou vindo
na próxima onda?"
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http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/08/03/back-story-books-vs-e-books.html