Páginas

sexta-feira, 23 de março de 2012

O Excesso de Informação Causa Aminésia


Resenha da matéria publicada na revista Época de janeiro de 2012, entrevista feita à Umberto Eco, intitulada: ‘Umberto Eco: ”O excess de informação provoca amnesia”’.



            O intelectual e romancista Umberto Eco, 80 anos, em sua mais recente obra de 2010, O cemitério de Praga, mantém seu carácter polêmico de escrita, característica já presente desde o  início de sua carreira, no ano de 1962. O seu novo trabalho, por se tratar de um tema muito polêmico, o surgimento do anti-semitismo, foi criticado pelos Igreja Católica e pelos grupos judaicos de Roma. De um lado os católicos não gostarem de terem os jesuítas satirizados ("são maçons de saia"), e do outro os judaístas terem receio das menções do romance ao Protocolo dos sábios de Sião, que poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus.
         Entre as obras famosas do autor estão O nome da Rosa (1980), o pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994) e Baudolino (2000) e a Misteriosa chama da rainha Loana (2004).
         Em entrevista a revista Época de janeiro de 2012, Eco comentou sobre temas como idade, ele iria completar 80 anos naquele mês, o livro de papel que ele continua sendo um dos maiores defensores, a internet, o conhecimento on-line, literatura, e sobre o seu mais recente romance, O cemitério de Praga. Nas horas de folga, o autor costuma colecionar livros e ouvir música pela internet.
        Para Umberto Eco, a internet é uma forma de desaprendizado, e o excesso de informação sem hierarquia se torna um problema para o internauta, mais perigoso que a desinformação. Segundo o escritor, o universo on-line é um universo selvagem. E conclui com o raciocínio que conhecer é cortar seleccionar, excesso de informação gera amnésia, faz mal. Também cita o fato de a TV, para o bem ou para o mal, sempre ter selecionado o conteúdo para pessoas sem instrução, "os ignorantes". Já a internet não. Umberto Eco sugere as Universidades a elaborarem uma teoria e uma ferramenta de filtragem do conteúdo on-line, que funcione para o bem do conhecimento.
        Sobre a morte da literatura hoje no mundo, como alguns teóricos escrevem, o romancista se mostra um otimista que acredita na existência constante de grandes escritores a serem descobertos. Outro ponto colocado por Umberto Eco é o fato de a arte da literatura ser influenciada pelas crises econômicas, como todas as profissões do mundo capitalista, que acabaria dificultando a independência financeiras dos profissionais. Hoje, países europeus não conseguem ter uma classe de escritores economicamente independentes, mas os Estados Unidos de uma certa forma, ainda possui uma industria capaz de se manter como um polo emissor de conteúdo e profissionalizador dentro deste contexto econômico instável.
        Em outro ponto polêmico de suas opiniões, o romancista defende o não desaparecimento do livro, ou da substituição deste pelo meio digital, o ebook, mesmo tendo o romancista Umberto Eco narrado durante a entrevista para a revista, uma experiência recente com a utilização de um Ipad, em que o aparelho o ajudou muito durante uma viajem de trabalho pelos Estados Unidos. Tema de muita discussão entre amantes do papel e sua cultura de utilização e defensores da alta tecnologia, a substituição do livro pode desencadear uma revolução no setor da mesma forma como aconteceu com a industria fotográfica na década passada. A revista americana Newsweek publicou um estudo comparativo entre a produção da industria tradicional de livros e a industria digital. Os dados são baseados no ano de 2009. Estes números avaliam o custo de produção e o valor de venda de um exemplar em cada formato, quanto em royalty um autor pode ganhar com a produção intelectual, o volume em vendas de um sucesso editorial no formato tradicional e digital, quanto cada editor faturou em cada formato e quanto o planeta foi afetado pela produção destes conteúdos.
            O custo de produção de um livro tradicional é 4,05 dólares por livro para um produto de valor 26 dólares. Na versão on-line, o custo de produção de um livro é 0,50 dólares para um produto de valor 9,99 dólares. Um autor fatura em royalties o valor de 3,90 no formato tradicional e no formato digital 2,12 dólares para os produtos citados anteriormente. No ano de 2009, o faturamento em vendas foi de 249,2 milhões de dólares do formato tradicional foi de 29,3 milhões de dólares no formato digital.  Para se produzir um e-reader, se emite a mesma quantidade de carbono na atmosfera para produzir de 40 a 50 livros.
            No debate que se instaura sobre o assunto na sociedade e nos meios editoriais, autores e empresários se manifestaram com suas defesas a favor ou contra a substituição do livro. Umberto Eco e o escritor Jean-Claude Carrière expuseram suas opiniões no livro chamado Não Contem com o fim dos livros, série de relatos e conversas entre os dois autores, aonde o tema é o livro e a sua importância na vida destes dois escritores.
            O problema encontrado pelos autores Umberto Eco e Jean-Claude Carriere é mais complexo do que simplesmente uma questão de opção entre o passado papel e o atrativo digital das novas tecnologias. Neste momento o que se discute são os próprios conceitos de livro e literatura, que já não parecem mais tão claros diante das novas mídias. o próprio autor de O Nome da Rosa reconhece que, por mais que tenha devorado bibliotecas, é incapaz de devorar a revolução que se anuncia. Uma nova semântica começa a se instaurar através a partir da internet. Os autores começam a trabalhar com o conceito de quarta tela, que seria uma nova ferramenta que se tornaria parte de nossas vidas. As outras três seriam a TV, o computador e o telefone celular.
            O primeiro choque dentro da industria editorial já começa a ser perceptível em novas experiências que começam a ser aplicadas por grandes editoras. Novos formatos digitais para e-books se utilizando de linguagem de HTML criam um produto mais interactivo entre produtores e leitores, podendo ser reescritos por quem os consome. Uma nova experiência interactiva e colaborativa que coloca em questão o conceito de autoria e propriedade intelectual. Com o surgimento do HTML no formato dos Epub, o próprio conceito de livro está em aberto. Seriam livros ou alguma forma  nova, que já é chamada de transmidia, que conviverá em separado com o mercado editorial tradicional, como a televisão adquiriu uma linguagem diferente do cinema?
            Na obra literária "A questão dos livros: passado, presente e futuro", o autor Robert Darnton, relata que o livro também foi parte de uma revolução no passado que desbancou métodos de produção como o dagueorótipo, contrariando seus defensores. Mas as revoluções tem sido cada vez mais rápidas. "Da descoberta da escrita até o códex (formato do livro atual) se passaram 4000 anos. Do códex à tipografia, 1.150 anos. Da tipografia para a internet, 524 anos. Da internet para os mecanismos de busca, 17 anos. Deles para o Google, 7 anos. E quem sabe o que estará ali na esquina ou vindo na próxima onda?"

José Antonio de Souza Piné


http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/08/03/back-story-books-vs-e-books.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário